sábado, 3 de agosto de 2013

POR UMA METAPOESIA MAIS INTELIGENTE (OU MAIS INERENTE)

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.
(Manuel Bandeira)


Já que estamos no único blog interplanetário das Américas, e portanto, conectados à internet, nada nos custa utilizar a melhor ferramenta de coleta de dados pessoais — digo, de buscas — da rede para melhor nortear as próximas linhas. Pois bem, utilizando-se do buscador, logo na primeira página de pesquisa encontraremos que “metapoesia” é a poesia enquanto poesia. Tudo bem, tranquilo, concordo. Com o conceito em mente, que tal agora parar e pensar nos seus usos e abusos?
Cresci lendo um perito no assunto: João Cabral de Melo Neto, e não demorou muito fui parar nos versos do Alberto da Cunha Melo. Antes mesmo de parar para pensar no que Cabral queria dizer com “Poesia te escrevia:/ flor! conhecendo/ que és fezes. Fezes/ como qualquer” ou ver Alberto realizar a sua Oração pelo poema. Achava interessantíssimo o modo como ambos tratavam a poesia quando não faziam nenhuma menção à própria. Estava tudo tão inerente, pra mim, que seria um pleonasmo pensar nesses pernambucanos escrevendo metapoemas.
Acredito que nos poetas há uma constante preocupação com o exercício de escrever e que essa preocupação pode e deve ser “engessada” a qualquer tema imaginável. Ora, para que raios o leitor precisa saber que escrever um poema é assim ou assado para um poeta? Penso que a metapoesia pode ser incorporada de uma maneira muito mais próxima de quem lê, de modo que os universos do transmissor e do receptor se encontrem em um objeto comum.
Fazer uma metapoesia voltada para os trejeitos e artimanhas de quem escreve serve apenas para engrossar a triste estatística — sem base numérica nenhuma, a não ser nas minhas pretensiosas observações — de que o maior público dos poetas são os próprios poetas.
Não sou dos que escrevem para póstumos, não tenho medo de sofrer a contestação dos vivos. Sei que é o leitor a parte mais importante da recepção do poema e ele quem determina a qualidade da obra, mas o poeta não deve se eximir da sua responsabilidade ao escrever. Sei também que, voluntariamente ou não, há poetas capazes de pôr em prática, sem pedância, as suas agonias para quaisquer públicos.

15 comentários:

  1. Por uma metapoesia mais inteligente (ou mais inerente) encontra-se no e-book 12 Rotações, disponível para download aqui mesmo no blog.

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  2. Fred, acho que quaisquer regras são grades, Poesia precisa ser. Do jeito que é. Vem de onde se encontra. Ou se desencontra. Somos diversos. Gostar ou não gostar, afinar-se ou não, traduzir ou não, é outra conversa. Eu tenho "fases" de leitura para vários poetas. Acho que é isso. Haverá sempre quem goste e quem não, mas quem escreve, antes de tudo, precisa apenas "parir".

    Beijos,

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  3. Limerique

    Amigo, poesia é para quem gosta
    Pois quem a lê, na mensagem aposta
    Não há só boa poesia
    Mero fruto da agonia
    Então, por ser boa pode ser uma bosta.

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  4. Sem delongas, caro Fred. É sempre bom descobrir que há um teórico atrás do poeta (no bom sentido, é claro), além do próprio teórico há no poeta. Não haveria a teoria se não houvesse o criador, é nele que repousa a teoria. E você entende tão bem dessas coisas, que eu disse sem delongas, e veja já me alonguei...
    Grande abraço,

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  5. Fred, concordo com você quando diz que "o maior público dos poetas são os próprios poetas", mas a Tania regina Contreiras está certa quando diz: precisa apenas "parir". Há poetas e poetas, poesias e poesias. Não sejamos hipócritas nem cegos. Meu abraço.

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  6. BRAVO!!!

    "Para mim as coisas acontecem de modo bem diverso, não me importa exibir-me a um público sem face. Meu estimulo não são três, cinco mil pessoas: é você, que dentre essas me lê porque me entende, porque nesse momento de algum modo sente um vínculo de prazer comigo". – (Douglas Tabosa).

    http://apoesiaestamorrendo.blogspot.com.br/

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  7. Às vzs tenho vontade de fugir da poesia: é preciso ser forte para ser sensível e ouvir/ler/fazer poemas.
    Um desabafo...

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  8. o que seria do blogspot sem os teus escritos, querido.

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  9. "a triste estatística — [...] — de que o maior público dos poetas são os próprios poetas"

    Disse certa vez um poeta (que, certamente, já se utilizou alguma vez na vida dessa coisa inútil e pedante que é, pra você, " a metapoesia dos seus trejeitos e artimanhas") que tem de ser tão poeta quem ousa ler um poema quanto quem o escreve. Eu concordo com ele.

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  10. Com certeza, quem lê poesia são os poetas. Não tenho dúvidas.

    Muito bom teu texto!

    Abração pra vc.

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  11. Escrever em qualquer estilo, sempre o importante é a mensagem, cabe aos leitores julgar.
    Muito bom o texto,
    Grande abraço e sucesso!

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  12. Ninguém melhor do que o poeta para falar de como fazer poesia! Drummond dizia que quem escreve precisa estar sempre se atualizando, estudando, buscando uma certa perfeição (algo do tipo) - para não fazer feio. Estudar a gramática, implementar o vocabulário. Não vejo problemas com a metapoesia e concordo que, apesar de nem todos os leitores serem aqueles que escrevem, talvez representem uma grande maioria por causa da identificação que ocorre entre uns e outros.

    Isso me fez lembrar:

    POESIA

    Pronta nos olhos de quem


    Intuição ou não - poesia, poética(o), poema, poeta, poemeto, verso.

    Paetê
    Peia

    x _ _ _ _ _ _
    P
    o
    e
    s
    i
    a


    Pinta o elo
    de candura:
    Pintura

    Pura
    Sorte.

    Poça

    Pó.
    É
    Rima.

    O mar - esia.

    http://cartaz-amarelo.blogspot.com.br/2011/02/poesia.html

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  13. Acredito que toda obra, seja poesia, pintura, cinema, acaba, positivamente, se perdendo do seu autor. Não há controle sobre as interpretações. É tudo que se fala também faz parte daquela obra. É o poder do olhar que a transforma e a reinventa, sempre.

    Bjos!

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  14. Acho que tudo o que venha do coração (seja poesia ou não), não pode deixar de ser belo, nem que seja só para quem a escreve :)

    É a alma a se exprimir.

    Beijos

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