sábado, 22 de junho de 2013

ABECÊ


Uma chuva me pesa nas costas enquanto subo a ladeira. Vou ouvir Lula Côrtes. Drummond, Antonio Cicero e Bandeira: um verso de cada (não necessariamente nessa ordem) me surge na cabeça. Fiz um almoço excedente para a janta. Depois do banho eu como e ponho Desengano na agulha; folheio pelo menos um dos três poetas e priu. Plano perfeito.
Comi com o televisor ligado e tudo foi pelos ares. Vi, ao vivo, o senhor Guilherme Boné dando dica para dedurar manifestantes à polícia. Horário nobre da tevê aberta, na mesma emissora que ensinou maniqueisticamente — e colocando duas palavras na moda para os poetinhas dos anos 10 — o que era “vandalismo” e “pacifismo” em protestos. Cochicho para mim mesmo: a revolução não será televisionada, relaxa.
Na minha cidade, que pode ser qualquer outra, estava lado a lado e imensamente distante daqueles que dias atrás riam dos meus sonhos, arqueavam sobrancelhas às minhas escolhas de vida e olhavam-me meio de lado. Meu ódio de classe estava pulsante, mas domei-o: talvez haja trigo entre o joio. Sempre há?
A lição foi muito bem passada e muito bem aprendida. O hino nacional virou palavra de ordem e com muito orgulho, com muito amor nos unimos para jamais sermos vencidos. Um horário eleitoral às avessas, as cobranças eram tão vagas quanto às promessas do guia bienal. Os cartazes e os coros entoados eram baseados no que consumimos: Facebook & propagandas.
A não ser dentro de mim, na minha cidade não chove mais, mas ainda é noite. Eu preciso dormir para continuar na vigília, porque os conservadores estão descaradamente se ressignificando para manter o status quo. É preciso manter-se sensível. Por mais que eles se reposicionem e se esforcem, neles a poesia nunca fará morada.
    

24 comentários:

  1. Limerique

    O povo pede mudanças, mas nada
    Lá em Brasília eles dão risada
    Estão com bola toda
    O mundo que se foda
    Se não mudar por bem, é na porrada.

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  2. eles estão sempre a postos para nos dar exemplos de misantropia


    abraço

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  3. Perfeito, Caju. Perfeito.

    a revolução não será televisionada, relaxa.

    Beijos,

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  4. Revolução lelekbook, mas ainda é o que, enfim e tristemente, nos representa, fala de nós, do que somos no nosso tempo... Mesmo a falta de conteúdo é um conteúdo a se analisar. O problema é que, enquanto uns se maquiam de patriotas (súbito a tal consciência os penetrou, oh!), outros nós analisamos... Mas, pensando bem, isso não é um problema.

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  5. Fred, dos políticos eu já não espero nada. A administração pública poderia regular a ação dos políticos, mas é mais burocracia. Enfim, a lei tem de ser rigorosa e executada. Cadeia para o pessoal do Mensalão, e leis severas para corruptos.

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  6. E quem é que sabe o que vai realmente acontecer "quando os trabalhadores perderem a paciência"?
    *meu sonho é que aconteça o mesmo do que há no poema de mesmo nome... mas...

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  7. Fred, acredito que não adiante nada quebrar e vandalizar. No que eu creio, é que é preciso trabalhar, coisa que nossos presidentes e políticos não têm feito. Também acredito que é preciso melhorar educação e saúde, que estão a zero. Além, é claro, de acabar com essa ganância deslavada de nossos políticos e mensalões. Não sei se vai dar certo, mas quem sabe?
    Beijo e abraço pra você.

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  8. Tentar com esperança e dignidade... com educação e respeito, SEM estragar o que é nosso!!!

    Beijos.

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  9. Perfeito ..

    Eu faço sim , sou daquelas que nao foge a luta nem ao amor.

    Beijo

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  10. "Meu ódio de classe estava pulsante, mas domei-o: talvez haja trigo entre o joio. Sempre há?" Sempre há? Mas, uma gota de veneno num balde d'água a torna perigosa, melhor, imprestável para o consumo, uma laranja podre no balaio pode comprometer todo o resto, há quem não cheque nem perto. Nem sempre é tão simples cortar o lado podre da maçã e jogar fora.

    http://apoesiaestamorrendo.blogspot.com.br/

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  11. É preciso continuar assustando a corja...Gosto de sua espontaneidade, Fred. Abraços!

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  12. Nunca, nunca mesmo, jamais! E não é por haver joio no meio do trigo que vamos deixar de comer pão! Vamos comer pão e muito mais. Vamos comer a ganância dos donos do Brasil. Arrepia, Brasil, mas sem quebrar. Temos outros meios de agir, vamos lá!
    Fred, o blog da Elisa não me permite comentar, é isso. Eu só posso comentar onde tem Nome/URL. Meu abraço.

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  13. O JAIRCLOPES disse muito bem: "Lá em Brasília eles dão risadas". É isso mesmo, eles são insensíveis a manifestações pacíficas, só entendem a violência, pois que seja, agora vão ter que nos engolir, como dizia Zagalo. Meu abraço.

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  14. Oi, Fred, que magnífico, o olhar do poeta transbordando sabedoria crítica com uma agudeza, com uma pontaria certeira. A revolução não será televisionada, cara... Quem sabe, talvez ela possa começar acontecer depois dessa maratona.
    Sabe, recuperei até um pouco a esperança!
    Grande abraço,
    P.S.: Obrigado pelo teu olhar lá blog mais uma vez. É sempre bom ler os teus comentários.

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  15. Agora, mais do nunca, é preciso que continuemos sensíveis.

    bj

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  16. "Um horário eleitoral às avessas, as cobranças eram tão vagas quanto às promessas do guia bienal. Os cartazes e os coros entoados eram baseados no que consumimos: Facebook & propagandas."

    "os conservadores estão descaradamente se ressignificando para manter o status quo."

    - - -

    Já ta ficando repetitivo isto, mas preciso dizer de novo: vc é foda, Fred Caju!!

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  17. Massa demais, Caju!!
    Drummond fez poesia da náusea; vc, desse enjoo constante que sobrevive entre as demagogias - políticas e midiáticas.

    Bjo

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  18. Fred,

    Gostei imenso de ler o texto ao som do Desengano na agulha, pois ando muito assim ultimamente, querendo voar pra longe... E tens toda razão, em alguns a poesia jamais fará morada. Gr. Bj.!

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  19. Fred, Amigo

    Se mudares os nomes, certamente estarás falando doutro lugar: este Portugal, não?
    As oportunidades e os oportunistas são uma mistela de políticos... todos iguais.

    Abraços


    SOL

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  20. Caro amigo

    No coração
    dos que constróem
    o capital,
    jamais haverá
    espaço para a poesia...

    Tudo de bom

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  21. É verdade. Ali a poesia não fará morada :)

    Abraço

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  22. Senhor, a crônica do dia nos dai hoje...

    "Por mais que eles se reposicionem e se esforcem, neles a poesia nunca fará morada." - achei bonito.

    Grande abraço!

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