sábado, 23 de fevereiro de 2013

QUALQUER PESSOA

Todo mundo acha que pode,
acha que é pop, acha que é poeta.
(Maurício Pacheco)


É completamente irreal (mas não impossível), pra mim, que alguém que nunca tenha dado uma única pincelada na vida resolva fazer uma exposição do seu não-trabalho e que ainda haja um curador disposto a ceder um espaço ao mais novo artista plástico da vez. Fazendo uma transposição dessa situação para a música, seria como uma banda onde nenhum “músico” nunca sequer tenha tocado um único instrumento seja contratada por uma grande gravadora. E na poesia, será que a transposição é tão irreal e longínqua assim?
Arte menor por natureza, a poesia tem disso: a possibilidade de qualquer pessoa expressar o que sente (ou não) através de versos (ou não). Tudo bem, tranquilo, concordo. Qualquer pessoa tem plena capacidade de se aventurar na poesia, até mesmo sem precisar saber ler ou escrever (quem dirá saber de formas, fôrmas, métricas ou rimas?).
Tem muita gente, todavia, achando que o pós-modernismo escancarou as portas do fazer poesia e agora quem quiser pode entrar. E que todo mundo pode “oswaldear” como bem entender. Mas muitos se esquecem de que quem abriu essa porta foram os próprios poetas.
E nunca é demais lembrar que o poeta não é qualquer pessoa. Insatisfeito, dissonante e perdedor, o poeta foge à regra. Porque quem não se incomoda e vence em tudo na vida, da poesia só quer, no máximo e na melhor das hipóteses, se dedicar à leitura.
O abismo que separa o poeta a qualquer pessoa é o mesmo abismo que separa a poesia de ambos. Portanto, aceito o pressuposto que qualquer um pode escrever poesia. Mas por corporativismo e defesa da classe, fico com a poesia escrita por poetas.
Assim como também prefiro ler críticas, resenhas e considerações literárias daqueles que realmente se dedicam ao assunto. Cabe-me, como autodefesa, afirmar que a impressão de um mero caju, quando muito, não passa de uma simples noda.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

UM SOL PARA TI


Se eu pudesse dar
meus olhos (são míopes,
eu descobri há pouco),
seriam seu presente.
Porém, são tão meus
que não posso dá-los.
Resta-me, portanto,
um nascer do sol
para minhas cores
também serem tuas.
     

sábado, 2 de fevereiro de 2013

COR-DE-ROSA

      A Kilda Karulina

Dir-se-ia dos guardanapos
quando estão em nossa casa:
servirão para alguma festa,
quando formos fazer frituras
ou o papel higiênico acabar.

Dir-se-ia dos guardanapos
quando em uma lanchonete:
devem estar sobre as mesas,
limpam as bocas do catchup
e dispensam lavar as mãos.

Dir-se-ia dos guardanapos
quando estão amassados:
não terão nenhuma utilidade,
o lugar ideal é a lixeira
e voam pelo chão e pelo ar.

Dir-se-ia dos guardanapos
quando nas mãos do poeta:
em casa são todos inúteis,
na lanchonete são sabão
e amassados se renovam.