sábado, 12 de janeiro de 2013

PELO DIREITO DE SER BOM

O medo superou todas as possibilidades. (...)
Nos deu sapiência para saber que a poesia
Não põe mesa na terra dos fracos.
(Lucas Holanda)


Se um bom professor consciente da sua capacidade profissional, do trabalho que realiza em sala de aula, e do seu valor social, disser: sou bom, acho que nenhum filho da puta vai olhar torto ao honrado cidadão. Policiais, advogados, jardineiros, jornalistas, prostitutas, ou seja lá o que for, também têm esse direito(?) de demonstrar a sua utilidade pública.
Entretanto, entre nós existe uma categoria maldita que vive andando pelo mundo de cabeça baixa; que, quando muito, classifica o seu trabalho como razoável. Platão estava certo, essa galera realmente não deveria ter vez.
Se é realmente ruim a “arte” literária de uma pessoa que, em pleno gozo de juízo, todos os dias vai à sua estante ou dá um rolê pelas bibliotecas para ler clássicos, bem como todo santo dia liga seu pecezinho e navega atrás de novidades, tomando notas e rabiscando um ou outro poema de vez em quando, e bate papo com quem também tá na mesma missão, e mesmo assim a sua arte literária continua ruim... então realmente temos um profissional em incompetência.
Agora, se o poeta faz o seu dever de casa e diz: sou bom, a casa cai. Garanto que vai ter gente sem levá-lo a sério, gente pra diminuí-lo ou algum “bom” cristão pra lhe enfiar uma colherada de humildade goela a baixo. E sabe qual é o resultado? Porco capitalista curtiu isso. Taí um mercado editorial perverso colocando o cabisbaixo poeta no seu lugar.
Bukowski falava que a autoconfiança excessiva e o não se por em dúvida geram obras ruins. Tudo bem, tranquilo, concordo. E muita gente morreu sem saber a grandeza que deixou. Não adianta dizer que é o tampa-de-crush. É a obra que deve se impor. E por vezes ela não está inserida dentro dos padrões estéticos ou ideológicos de seu tempo.
Mas se não houver uma voz, mesmo que interna, baixinha, longe, dizendo: eu posso, vou tomar o que é meu, já era. Menos um poeta no mundo. Ainda bem.
     

24 comentários:

  1. Originalmente publicado em: POETAS DE MARTE (Coluna “É NODA!” — #08).

    Pelo direito de ser bom encontra-se no e-book 12 Rotações, disponível para download no blog.

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  2. Limerique

    Em geral, a opinião alheia dá o tom
    Seja nas letras, na pintura ou no som
    Intimida o artista
    'És ruim, não insista!'
    Mas, no fundo, ele pensa: 'eu sou bom'.

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  3. Sempre mto bom apreciar seus textos, amigo!

    Bjos!

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  4. Não adianta fugir do Aristotélico, até mesmo quando se trata da auto-crítica da construção poética. Devemos seguir o caminho do meio.

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  5. No fundo eu sei o quanto sou boa no que faço..

    ....Beijos!

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  6. Acho ótimo ler o que vc escreve, pela sinceridade, pela autenticidade.
    Prossiga assim, Fred Caju!
    Abração.

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  7. Oi Fred

    Acho que entendi o teu texto, mas eu tenho algumas questões. O artista, preocupado com sua arte, deve atentar para sua capacidade de agradar um consumidor? E isso cabe a todo artista, sem exceção? O que é bom? O que não é? Quem determina o valor de uma obra de arte, ou se é arte?

    Aí eu me lembro do Wilde, quando diz no Dorian Gray: “Toda arte é completamente inútil.” Existe algo que vai além do que uns chamam de qualidade e outros de excelência, e bem mais além do que se diz. Vai além da vaidade de um reconhecimento prazeroso da nossa habilidade de entreter.
    Quando damos uma utilidade à arte limitamos a sua capacidade de transcender a outro campo, pomos rédeas num cavalo selvagem, designamos um pasto cercado, dizemos: “este é forte, bonito, voraz!” ou se é arisco: “este é ruim, não serve pra muita coisa.” No entanto, todo cavalo não passa de cavalo, até que o homem, por força, o faça enfeitar um catálogo agropecuário.

    Penso que é mais natural discutir sobre a correspondência de uma obra, aquilo que ela nos diz ou não diz, entendê-la como individual...
    É certo que não é uma verdade absoluta e que se trata da minha opinião.

    Então: ser bom, ser ruim ou ser?

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  8. Mais uma cassetada do Fred Caju, que tem meu apoio quase integral. Não sou crítico literário, e penso que todo poeta merece respeito, seja ele considerado bom ou não. Meu abraço.

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  9. "Mas se não houver uma voz, mesmo que interna, baixinha, longe, dizendo: eu posso, vou tomar o que é meu, já era. Menos um poeta no mundo. Ainda bem."

    Preciso comentar mais? Mandando SEMPRE bem, Fred!

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  10. há que ter um rasgo de grandiosidade, mesmo que ele seja ínfimo



    abraço

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  11. concordo com bukowski, assim como concordo com você. precisamos ter essa voz que nos diz que estamos preparados, mas também precisamos nos questionar e buscar outras técnicas e formas.

    quanto ao seu comentário, eu sou totalmente a favor da morte ao gênero! e por incrível que pareça, aquela conversa aconteceu... daquele jeito, numa mesa de bar. com questionamentos de gênero e inseguranças pessoais.

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  12. Grande Caju
    Esse é o poeta, a voz que não cala e com humildade e empenho busca espaço num universo muitas vezes cruel e desfavorável.
    Especialmente acredito em você, sinto que faz a sua parte, vejo aqui um trabalho autêntico e verdadeiro. Bora lá!
    Deixo um cordial abraço
    Boa Tarde

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  13. Tanto o professor como o poeta, assim como qualquer profissional, tem que acreditar que é capaz de fazer mais e melhor. Mas cabe aos outros julgar da sua capacidade, ainda que esse julgamento, muitas vezes, seja cruel e injusto.
    Ser avaliado é foda, como diria o amigo Fred... rsrs...
    Um abraço.

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  14. Acho q para ser bom não é preciso dizer. Mas fazer! Pq se o reconhece...

    Bjo

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  15. É que quando me dizem: suas crônicas dariam um bom livro. Eu penso: Não! Eu detestaria ser analisada, esmiuçada, julgada pelo que eu nem sei estar dizendo.

    Gosto assim, do amadorismo, do descompromisso. Até quando? Não tenho a mínima ideia. Talvez eu pense diferente no próximo minuto.

    Talvez eu seja esse poeta a menos no mundo. Ainda bem.

    Pensamento massa.
    Abraços!

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  16. É isso é poeta quanto mais acordarmos as pedras tanto melhor. Não vamos deixá-las dormindo em berço esplêndido. Isso é uma nódoa que nãp se tira com limão.
    Abr.,

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  17. É essencial ter esta voz interna, falando baixinho mesmo e até duvidando... E a poesia mostra-se, usando-nos como instrumento.

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  18. Fred esta semana pensei sobre uma parte do assunto abordado aqui e pra falar a verdade teu texto vei ajudar em meus pensamentos, ampliando para uma visão mais interessante.Texto rico!

    Deixo aqui um convite para conhecer o meu novo espaço
    ( http://marlifrancofotos.blogspot.com.br/)
    Um bjde violetas

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  19. Caro amigo

    Penso que cada pessoa
    deve ter a coragem
    de construir algo.
    O conceito de bom
    ou ruim
    é relativo,
    e para mim, impossível mensurar.
    Mas a coragem
    de acima de tudo,
    ser algo,
    esta é uma verdade digna
    de ser considerada boa.


    Que todos os dias
    os sonhos nasçam em ti,
    como nasce o sol pela manhã...

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  20. A Poesia é uma descrição do Poeta e, sobresai no que cada um sente e dela se "alimenta".
    Se nada emana dela (Poesia), não é de nenhuma utilidade.
    "[...]É a obra que deve se impor.[...]"


    Abraços


    SOL

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  21. O importante é acreditar no seu potencial.
    Gostei do post, uma "cusparada" na cara de alguns chatos.

    BeijooO*

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  22. Ah! Obrigada pela visita e curte esses versinhos aí embaixo..rsrs.

    Beijos.

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  23. Hum... tema bom.

    Eu acho o seguinte... Se uma pessoa quer mesmo ser um artista, ela precisa, antes de qualquer coisa, levar a sua arte a sério, precisa respeitá-la e entender que, por mais que ela tenha potencial, que ela "leve jeito", ela vai precisar estudar, estudar e... estudar.

    Eu acredito que grande parte da "qualidade" da produção de alguém se deve à sua dedicação a determinado ofício. Só que a coisa é um pouquinho mais complexa, porque não basta dominar as técnicas. Para um poeta, por exemplo, não basta dominar métrica, versificação, ler os clássicos ou os mais modernos. Também não basta escrever todos os dias (embora a constância na escrita e as leituras sejam fundamentais). O poeta precisa, além de tudo isso, buscar dentro si, a própria essência, a sua própria verdade, a sua liberdade como escritor. Imitar os melhores poetas não vai resolver. O mundo não precisa de outro Quintana, de outro Pessoa, de outra Florbela... Entretanto, é inevitável que haja uma troca e que o poeta iniciante absorva certas características que lhe agradem em outros autores.


    Bom, eu acho que a pessoa deve se esforçar, amar o que faz e procurar se melhorar a cada dia. Ela deve ser honesta consigo mesma e deve ser crítica o suficiente para olhar para algo que fez e dizer: "Não ficou muito bom". E também deve ser verdadeira o suficiente para dizer a si mesma "ficou muito bom".

    A verdade é que não há uma fórmula. A pessoa não pode ser arrogante e se manter cega a respeito da suas próprias dificuldades e fraquezas como artista (ou como profissional). Mas ela também não pode deixar que qualquer coisa a desvie do caminho que ela escolheu para si. Não podemos nos achar péssimos poetas só porque alguém nos disse que somos ruins, por exemplo. Se dentro de nós sabemos que temos algo precioso e verdadeiro para oferecer, precisamos acreditar nisso e lutar pelos nossos objetivos como artistas.

    Beijos!

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