sábado, 1 de dezembro de 2012

TRANSGRESSÃO NÃO PRECISA DE INSTRUÇÃO

Há o escritor que acredita
Que, bem, só ele é que leu
E repete a toda hora:
‘O grifo é meu’.
(Millôr Fernandes)
  

 Penso que a obscuridade do texto poético e as lacunas deixadas pelos autores são as plataformas de embarque para a viagem que a leitura nos permite. Como leitor, gosto de completar o que leio com as minhas próprias experiências (ou falta delas). Um poema completo jamais existirá, porque não cabe ao poeta finalizá-lo.
Quem não entender que se dane”, assim sentenciou Hélio Oiticica, em 1971, na imprensa carioca. Entender um poema não é descobrir a fonte de origem dos versos ou desvendar a biografia do autor, mas sim, nutri-lo de sentidos ao bel prazer de cada um. E depois nada como uma mesa de bar ou uma roda de fumo fino para dialogar cada ressignificação dada à obra.
Entretanto, há autores que jogam um balde de água fria em quem os leem, deixando todos de asas presas para alçar voo. Por pretensão ou ingenuidade, os que assim agem, voluntariamente ou não, acabam deixando a poesia subserviente à normalidade. Por ser arte menor e uma penetra na festa do mercado, a poesia tem mais é que transgredir. Usar e abusar da imaginação do leitor.
Pensando o poema como uma mancha gráfica, tal qual Leminski, ou em um delírio tipográfico, a la Mallarmé, a escolha e o uso das palavras é fundamental. As ferramentas de caixa alta, negrito, itálico, parênteses e aspas são recursos disponíveis para a fluência do texto, e usados a torto e a direito por muitos concretistas (ou assim autointitulados). Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas às vezes um destaque desnecessário, na palavra, tira o gostinho da descoberta pelo leitor.
Conforme canta Arnaldo Baptista: “Eu quero mais é decolar toda manhã”. Não preciso, portanto, de gritos nos meus olhos ou guias de como eu devo ler o poema. Também sou plenamente capaz de perceber cada olé que for dado na gramática. Se Manoel de Barros ou João Guimarães Rosas viessem com manual de instruções, eles não seriam quem são, afinal.
      

30 comentários:

  1. Originalmente publicado em: POETAS DE MARTE (Coluna “É NODA!” — #03).

    Transgressão não precisa de instrução encontra-se no e-book 12 Rotações, disponível para download no blog.

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  2. Limerique

    Era uma transgressora poesia
    Que nem sempre mostrava o que dizia
    Cabia apenas ao leitor
    Interpretar o seu teor
    E qualquer entendimento cabia.

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  3. Um poema, na verdade, nunca está pronto mesmo.
    E ainda bem que a poesia não tem regras. Já nos bastam as outras, as da vida em geral...
    Caro amigo, bom fim de semana.
    Abraço.

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  4. Resumiu tudo, Caju!
    A poesia foi feita para deixar os leitores a vontade para interpretá-las, sem regras, sem conceitos, apenas a liberdade de expressão!
    Belo texto!
    Grande abraço e sucesso!

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  5. Porreta, mermão!
    Tá dito! Para bom entendedor, meia palavra bas...

    Beijos.

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  6. Hum... tema polêmico... rsrsrs...

    Primeiro quero lhe dizer que achei interessante o seu comentário sobre poemas começados por "Oh" (risos). Fiquei contente em saber que o meu escrito rompeu um pouco com a sua expectativa negativa.


    Sobre o post, também acho que um poema é múltiplo e que cada leitor é livre para reconstruí-lo. Agora, eu só acho que um poeta ou um escritor deve ter cuidado em alcançar os leitores, em se fazer entender. Respeito a posição do "quem não entender que se dane". Mas acho uma postura perigosa e pobre essa. Ora, porque a razão de ser da comunicação é comunicar, "tornar comum", a mensagem precisa alcançar o seu receptor, a mensagem precisa ser, em resumo, compreendida. Do que adianta escrever algo que ninguém entende? Do que adianta criar um significado que parece vir com manual de instrução ou um mapa do tesouro? Amo o Mario Quintana justamente por causa da sua sofisticada simplicidade, das palavras capazes de alcançar qualquer leitor atento e verdadeiramente interessado ou encantado.

    Um artista é, obviamente, livre para criar o que quiser, do modo como quiser, que isso fique bastante claro. Toda a graça está na liberdade. É também por isso que amo criar. Entretanto, cabe ao artista fazer as suas escolhas. Aperfeiçoar um texto de maneira que ele fique totalmente claro ou me importar apenas com o conteúdo em si sem ligar tanto para o grau de compreensão dos outros? Cabe ao poeta, escritor, pintor, compositor etc. fazer essa escolha. Escolher um dos extremos, ou um meio termo, ou ir de acordo com o momento. Há coisas que desejamos guardar apenas para nós e deixar para o mundo como um segredo. Já há outras que queremos que os outros saibam com exatidão...

    Eu sou adepta do cuidado com a compreensão por entender que, se a poesia não alcançar a alma das pessoas (se não for compreendida), ela perderá a sua razão de ser, a sua função. Mas até essa postura precisa de certos cuidados. Não há necessidade de deixar tudo evidente, "mastigado", pois até a graça da poesia pode ser perdida se ela se tornar despida de mistério, de brincadeiras, de "duplos sentidos"... Além disso, o artista deve respeitar os próprios sentimentos. Há versos que são mais claros do que outros, mas às vezes os versos mais objetivos são "mortos", sem sabor, sem graça... e os "menos claros" estão mais de acordo com o texto e com os sentimentos do autor.

    Enfim... o tema é bastante interessante e complexo. Se deixar, fico horas aqui... rsrsrs.

    Abraços, Caju!

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  7. Muito interessante esta tua perspectiva. Já dizia o grande poeta:
    "Sentir? Sinta quem lê!" Fernando Pessoa
    Beijo

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  8. Eu não tenho o menor pudor em admitir minha total falta noção quando leio determinadas poesias. O cara não se fez compreender, pelo menos não a mim. Mas acho massa. Eu penso: não sei o que porra esse cara quis dizer, mas quero saber... Vou esmiuçar. E fico lá, relendo, pra tentar compor uma interpretação.

    Poesia tem a ver com descompromisso, liberdade, eu acho. E tenho uma admiração imensurável com quem consegue dizer tão lindamente sem se estender em infinitas palavras.

    Acho que falei demais para quem não tem lá tanta intimidade com o fascinante mundo da poesia.

    Abraços.

    P.S: Aquela imagem é de uma lua de Solstício? Hahaha...Tô te falando, falta-me erudição. Tenho que prestar mais atenção no que posto. Obrigada!

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  9. Repito, ou será que rerepito? Quem sabe não tripito? Porreta, Fred! Meu abraço.

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  10. "Entender um poema não é descobrir a fonte de origem dos versos ou desvendar a biografia do autor, mas sim, nutri-lo de sentidos ao bel prazer de cada um."
    Genial Fred, por todo texto é de tirar o chapéu e te reverenciar!! Parabéns!!! Feliz final de semana. Beijos!!

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  11. Gênio. Seu resumo é isso. Depende de cada. Cada qual com a sua interpretação. Adorei. Falou tudo, moço!

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  12. Concordo: explicação e clareza são coisas diferentes mesmo (talvez você tenha desejado abordar mais essa questão da "explicação", e eu acabei puxando para a questão da clareza... rs). Acho que, quando se trata de arte, meu amigo, o terreno é sempre assim: escorregadio. No fundo, não há verdades absolutas. O mais importante é respeitar a si mesmo, é isso que eu acho. O artista tem que ser honesto com a sua arte, tem que se sentir livre e à vontade. E ele deve arcar com as consequências das suas escolhas, sabendo que, sempre que optar por um caminho, estará perdendo outro, isso é inevitável e não pode ser mudado. Tenho as minhas trilhas fixas, mas também gosto de conhecer e arriscar novos lugares (artisticamente falando).

    E valeu pelo elogio ao comentário. Gosto mesmo de escrever... risos. Gostei muito da frase que colocou lá. Não a conhecia.

    Beijão! Bom final de semana!

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  13. síntese luxuosa!
    semana passada escrevi "o poema não toma banho". tem mt a ver com seu texto, se peuder passe os olhos
    bj, poeta porreta

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  14. Muito bom Fred, o mais legal na poesia são suas várias leituras. Adoro qdo um poema meu é interpretado de forma diferente da minha.

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  15. Exatamente, Caju!
    Sempre comento isso com os alunos q se dizem com dificuldade de interpretar as literaturas afinal.
    Quintana o soube, quando afirmara serem pássaros os Poemas...

    Beijo

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  16. depois de feito,
    posto,
    o poema é osso
    deleite-se
    em colosso
    (conosco)



    abração

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  17. Bom, depois da leitura desse texto que alías achei ótimo,e concordo com o que foi posto aqui, não sei não..rs mas na verdade eu vim te convidar pra conhecer meu novo blog "reversos... e alguns versos". Um resgate de antigas poesias que escrevi num tempo que chamo de meu lado reverso.Quando puder passa lá e dê seu parecer. Abraços Fred!!
    http://poemasversosereversos.blogspot.com.br/

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  18. Perfeita a sua análise a cerca de como somos postos em rótulos e etceterados em desagradáveis moldes, principalmente vós, os escritores. Um bom artigo, assim como o vosso, pode nos dar uma amplidão do quão variada é a roupagem das letras. O Brasil é um manancial de gente boa na escrita e eu, como lusitano morador da terrinha brasilis, fico honrado por aqui estar e por ter acesso a gente como tu, Caju.

    O fechamento do teu texto disse-me tudo:
    « Se Manoel de Barros ou João Guimarães Rosas viessem com manual de instruções, eles não seriam quem são, afinal.» É assim que é, realmente, se eles se dessem ao ato de se deixarem desmistificar pelos rótulos dos críticos, o desastre era nosso, ficaríamos sem dois génios mundiais.


    Parabéns pela qualidade de vosso espaço, fico por aqui.

    Abraço.

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  19. Concordo com o 'inacabado' da poesia... visto que não se alterará em nada a autenticidade da escrita.

    bjsMeus
    Catia

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  20. Não gosto de regras no campo da literatura, até porque não me prenderia a elas. Creio que as pessoas escrevem por prazer, salvo em trabalhos técnicos, com objetivos pre-estabelecidos, como em um parecer jurídico. Poesias, para mim, são vozes do coração de quem as cria. Gostamos ou não e lhes damos o sentidos que captamos. Abraços!

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  21. Eu concordo, Caju. O "tudoexplicadinho" não é o melhor amigo da poesia, embora existam belos poemas relatos, que encantam pela forma. Eu gosto da poesia-choque-elétrico, a subversiva que arranca energia do olho do leitor e desestabiliza tudo. Deixa aquele eco surdo, e um consequente oco para a reflexao. Mas tem que ter um minimo fluxo, tipo um caminho, se não acontece o oposto, e o lugar-comum acaba virando lugar-nenhum, que é tão deplorável quanto.

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  22. Assino embaixo ou em cima, não interessa...

    Goste quem gostar, é um direito. Eu não gosto. Não em poesia.

    Aquele abraço!

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  23. ...a poesia está na alma
    de quem interpreta
    o poema...

    bj

    boa semana, pensador!

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  24. Fred, meu irmão, bom te ler agora... Delirar é preciso!!!

    Beijos,

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  25. Mestre Caju!
    A poesia, mais do que o poeta, precisa do leitor para ter sentido.

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  26. dizem que o poema não é o que autor escreve e sim o que p leitor lê

    as vezes não compreendo alguns poemas embora ame poesia

    o não entendimento pode ser apaixonante ou um tedio
    alguns escritores se esforçam para serem enigmaticos e acabam ficando tediosos

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  27. Maravilha esta defenestração, poeta. O fundo do poço está sempre ao teu alcance.
    Abr.,

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  28. Acredito mesmo que o que eu não compreenderia em um poema, outra pessoa o faria, pois somos uma mistura de influências e essas é que nos conectam com um ou outro texto. Eu me conectei ao seu.

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