sábado, 31 de dezembro de 2011

O SOL QUE VEM DO POENTE (excerto)

O jovem, então, era dois:
Alguém que tem os pés no chão
que tem dentro de si, outrem
com os sonhos simples e puros.

O sol, por outro lado,
tem apenas um rosto,
não foge de ninguém
e sempre está exposto;
é tão peculiar
que não tem nem oposto.

São dois lutando contra um,
mas dois em constante conflito
é desvantagem na batalha,
pois não rendem nem a metade.

Para vencer a luta,
primeiro, o menino
precisava definir
o seu próprio destino:
ou criava raízes
ou seria peregrino.

Então percorreu com os olhos
o quarto cada vez mais claro
como quem quer se despedir
para nunca mais retornar.

O relógio não para
para ninguém pensar;
tomado por instinto,
pôs-se a caminhar
em direção à porta:
resolvera lutar.
       

sábado, 24 de dezembro de 2011

APARELHO

                        a arte
                  do mar
                  de marte
                    tem
                        morte
                    tem
                        mortos
                              e os
                               nossos
                                 ossos
                               nos
                          poços
do cemitério
                   frio
              do rio
                          que deságua
                                 nas águas
                                                      do mar
                                                      de marte
      

sábado, 17 de dezembro de 2011

ROSAS


Das roseiras, os seus espinhos
usados pra ataque e defesa,
contraste de frágil e forte;
a força de olor e beleza
que percorrem todo o caminho
como faz o vento do norte.
        

sábado, 10 de dezembro de 2011

PELA MESMA JANELA DO EDIFÍCIO


O vento corre pela sala,
o aroma da dor se exala
e um certo jovem se cala
enquanto seu poema fala.
     

sábado, 3 de dezembro de 2011

CONTRADIÇÕES COERENTES

II

Acerte seu relógio,
na hora da saudade,
abrace...
Abrace meu poema
e finja que é seu.

Aperte seu vestido,
se estiver com vontade,
amasse...
Amasse meu poema
e finja que esqueceu.
   

sábado, 26 de novembro de 2011

MÃO INVÁLIDA

A magra mão se estendia,
uma mão que já não lavra
e que apenas se rendia
sem dizer uma palavra.

Uma mão com fome,
uma mão perdida,
uma mão sem nome

de um qualquer sem vida
que nada consome,
apenas mendiga.

Uma mão de alguém sozinho
que pode se revoltar,
pois não sabe dar carinho,
porém, sabe executar.
    

sábado, 19 de novembro de 2011

FAZER MAIS UM POEMA

Fazer que um poema
seja a voz do povo,
do povo que é mudo
e que jamais muda.
Fazer a fotografia
do tempo presente;
retratar com foto,
jamais com pintura.
Uma fotografia-pintura,
seria o mais correto:
a realidade da foto
e o labor da pintura.
    

sábado, 12 de novembro de 2011

LYGIA

Meus olhos pedem um abrigo
e já sei quem é a pessoa certa,
sei quem pode me acolher;
correrei em busca desse amigo
que vai me ajudar a viver.

Correrei mais rápido que o ar,
pois sei como o caminho é longo;
haverá obstáculos na estrada,
porém, nada vai me parar,
pois eu não vou parar por nada.

Eu seguirei o ritmo do vento,
nada poderá me prender,
só um acidente na avenida
que por um pequeno momento
paralisou a fonte da vida.

Quando tudo ganhou sentido
eu perdi o que mais importava;
parece-me que estou incompleta,
o meu coração está perdido,
assemelhando-se ao de um poeta.

Não sei como gira essa Terra,
só sei que não gira em harmonia;
acho que a injustiça é o motor,
pois no meio de toda essa guerra
um carro me tirou o meu amor.

O dia foi dezoito de julho,
deveria ser mais um dia calmo,
mas, foi um dia de muita agitação;
talvez foi por um mero orgulho
que não atendi aquela ligação.

Amei incomensuravelmente
o cidadão mais cheio de vida;
como se fosse planejado,
morreu do nada, de repente,
em um carro desgovernado.

Em meio a tanto medo e tristeza,
eu reúno todas as minhas forças
e mantenho a cabeça erguida;
pois eu tenho a plena certeza
que vale muito mais a vida.

Hoje guardarei na lembrança
nossos momentos mais felizes;
espero algum dia te encontrar
para bailar a última dança
que espero nunca terminar.

Todo o meu amor está em você,
mas hoje você não se encontra;
sinto você como uma brisa
que sempre insiste em percorrer
o meu coração de poetisa.
  

sábado, 5 de novembro de 2011

FRITANDO OVOS

Vencido pela solidão, concluiu:
o amor é a moradia do caos.
Naquela manhã, não se barbeou,
passou a mão nos cabelos crespos
e viu o seu reflexo no espelho,
perdeu-se nos olhos castanhos
viu como foi pouco com todos...
O seu afeto não foi suficiente
para deixar saudades na amada.
Naquela mesma manhã, decidiu:
viverá caoticamente na estrada.
   

sábado, 29 de outubro de 2011

TÃO CEDO

Nunca teve muita alternativa,
ela tivera que ser agressiva.

Voava, mesmo sem ser uma ave,
pois a vida nunca fora suave.

Lurdes ficou órfã muito cedo,
a moça foi adotada pelo medo.

A sua mãe foi a prostituição,
que lhe garantiu alimentação.

A moça sempre estava sozinha,
ninguém quis ajudar Lurdinha.

Nunca teve amparo ou refúgio,
as drogas eram o subterfúgio.

Não queria ser mais oprimida,
quis dar um novo rumo à vida.

Pensou que era muito esperta,
mas, não fez a escolha certa.

Lurdes foi cumprir seu carma,
dessa vez, trazendo uma arma.

Ocorreu uma falha no assalto,
o corpo jovem jaz no asfalto.
    

sábado, 22 de outubro de 2011

PREENCHENDO CADASTROS

— Qual é a sua profissão?
— Faço versos, sou poeta.
— Perdão, serei mais direta.
Senhor, não se ofenda,
estou lhe perguntando
a sua fonte de renda...
  

sábado, 15 de outubro de 2011

LITORAL

                  A Henrique Dantas Pinheiro de Menezes


As ondas quebram,
tubarões comem surfistas.
Crianças brincam,
como se fossem artistas.

Castelos de areia:
um reino de ilusão.
Mulheres-sereias:
incontrolável paixão.

Sal na água
para esterilizar a maldade.
Sol intenso,
simplesmente claridade.

*

Surfistas comem ondas,
quebram os tubarões.
Artistas, como se fossem
crianças, brincam.

Reinados de areia:
uma ilusão de castelo.
Sereias da paixão:
mulheres incontroláveis.

Maldade salgada
esterilizada pela água.
Intensidade clara,
solar e simples.
      

sábado, 8 de outubro de 2011

ÓRFÃOS DA METRÓPOLE

Sem pais, sem mães, sem amigos,
sem nenhuma perspectiva;
nem são joios, nem são trigos
(não lhes é dada alternativa).

Homens esquecidos,
marginalizados,
pobres e vencidos;

homens rejeitados
e sempre feridos,
sós, abandonados.

Almas metropolitanas
de gênesis duvidosa,
da geração suburbana
dessa gente silenciosa.
   

sábado, 1 de outubro de 2011

QUERO A CERVEJA DA TV!

Aqui o mercado de tudo é capaz:
colocam uma galega que é demais
em uma tanguinha fio-dental,
fazem um excelente comercial.
Adivinhem para que? Ora veja,
simplesmente para vender cerveja!
E eu ainda tenho a esperança
de achar aquela praia sem criança
para saborear minha espumosa
acompanhado de uma gostosa
com a praia sempre limpa e cheia,
onde é proibido gente feia;
ou então de encontrar um bar
igual ao da TV, bebe-se sem pagar!
Isso não é conversa de embriagado,
se me compreendeu, muito obrigado!
Mas se você não me entendeu...
Neste caso o problema não é meu.
    

sábado, 24 de setembro de 2011

O SOL QUE VEM DO POENTE (excerto)

De corpo fechado o garoto
tinha a responsabilidade
de idealizar a salvação
pela alegoria do sol-lua.

Pensou nos miseráveis,
na fome, na pobreza
e na infelicidade,
fingindo ter certeza
que tudo vai mudar,
transformar-se em beleza.

Quis que o sol que vem do poente
fosse o avatar dos excluídos:
um faz-de-conta da miséria
ou um mau momento passageiro.

Mas no fundo sabia,
tentar mudar o curso
das relações humanas
não é fácil percurso:
pois a desigualdade
é além do discurso.

Mesmo jovem, tinha certeza:
a segregação é concreta,
apenas quem está por cima
a vê como mera abstração.

Como sonhar não custa,
dava continuidade
à salvação solar
com doce ingenuidade
que concretizar-se-ia
sua nobre vontade.
   

sábado, 17 de setembro de 2011

CONSUMO IMEDIATO

Consuma-me o quanto você puder,
coma-me de garfo, faca e colher;
devora-me no lugar que estiver,
seja deitado, sentado ou em pé.
  

sábado, 10 de setembro de 2011

REGGAE

      seca
    cerca
    cercado
          gado
         arado
         arame
             ame
ou se dane
  

sábado, 3 de setembro de 2011

GIRASSÓIS

Dos girassóis, o seu esplendor:
o miúdo sol particular,
com movimento de carrossel
sempre girando sem parar,
iluminando qualquer flor,
iluminando qualquer céu.
   

sábado, 27 de agosto de 2011

PUTA QUE PARIU! CACHORRO SOLTO!

Puta que pariu! Cachorro solto!
Bem que o silêncio me avisou,
aquele cão desgraçado está lá!
Não entendo como ele se soltou,
aquele trator em forma de cão
que o próprio Capeta me enviou,
já deve está comendo o jardim
como a ração que ele devorou.
Sorteando uma chave no molho
sem muita, ou nenhuma, pachorra,
abrindo a porta com todo ódio
querendo o levar pra masmorra,
como o algoz faz com a vítima,
aos gritos de: “Sai daí, porra!”.
Mas, bem longe do meu jardim
vejo ele comendo uma cachorra.
   

sábado, 20 de agosto de 2011

DESUMANOS DAS HUMANAS

Trata-se do curioso grupo
dos produtores do saber
das ditas Ciências Humanas:
os mais eloquentes do mundo.

São elitistas verborrágicos
escondidos atrás dos livros
e das suas teorias insólitas:
muito se lê, pouco se faz.

Enclausurados por si mesmos,
divagam sobre metafísica
nos mais diversos idiomas:
são tão cultos quanto herméticos.

Estendem a bibliografia
com uma mera referência
que poderia ser dispensada:
vaidosos acima de tudo.

A simplicidade dos gênios
cede lugar à arrogância
intelectualmente nata:
sapiência idem prepotência.

Sob o seu teórico-tutor,
permutam carícias e críticas
para também serem citados:
lidos apenas por si mesmos.

Estudam problemas sociais
sem pensar na sociedade,
mas sim pensando no currículo:
incansáveis buscando títulos.

Eles enaltecem as massas
em suas produções acadêmicas,
mas são herdeiros das elites:
o poder flui do discurso.

Em uma distância segura,
estudam casos de pobreza
com total precisão científica:
mais estatísticas sem metas.

Ainda almejam mudar o mundo
mesmo sendo conservadores,
mesmo sem pôr os pés na rua:
são contradições coerentes.
   

sábado, 13 de agosto de 2011

REPOUSAR EM JANELAS

Como droga controlada,
o repousar em janelas
deixa a moça remediada
contra possíveis mazelas.

Quando o sol desperta
e traz a sua luz
à janela aberta,

a vida conduz
à coisa mais certa
(e o mal se reduz).

Ela tinha como vício
olhar o mundo passar,
ganhando um pouco de alívio
e coragem para amar.