sábado, 23 de outubro de 2010

JOSEFA

Eu mantenho os meus pés no chão,
pois sei como a vida é difícil;
nós vivemos em pé de guerra
e nem adianta lamentação,
assim é a vida aqui na terra.

Não sou uma mulher de cultura,
não tive tempo de estudar;
eu sempre trabalhei pesado,
sempre fui presa à agricultura,
sempre tive o corpo cansado.

Eu nasci no calor do sertão,
sou acostumada com o pouco;
eu troquei o livro pela enxada,
por isso não tenho educação
e não sou especialista em nada.

Posso não ter nenhum estudo,
mas tenho a minha sabedoria;
sou conhecedora da vida,
não preciso saber de tudo
para a alma ser reconhecida.

Aprendi a nunca reclamar,
só aprendi a dar graças a Deus,
todos os domingos vou à igreja,
pedir para Deus aliviar
a minha vida sertaneja.

Se não me apegar ao divino
não terei nenhuma esperança,
nem poderei sobreviver;
eu não quero que meu destino
sempre se limite a sofrer.

Eu vejo o meu próprio cortejo
e não pretendo morrer assim;
não sei como posso mudar,
mas ainda mantenho o desejo
da minha vida melhorar.

A lição que a vida me ensinou
não se aprende em nenhuma escola:
ter honra será meu cartão postal;
meu trabalho dirá quem sou;
dignidade será essencial.

Gostaria de ter estudado,
mas optei pelo meu trabalho;
ou aprendia a escrever o meu nome,
ou trabalharia no roçado
para não padecer de fome.

Enquanto não posso mudar,
continuarei com minha vida;
eu sempre farei do meu suor
algo que possa me orgulhar,
pois é o que tenho de melhor.
     

21 comentários:

  1. Originalmente publicado na forma de vídeo-canção em: Cronisias (25/09/2010).

    Josefa encontra-se no e-book Vênus, disponível para download no blog.

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  2. Não sabia que fazia biografias, Fred. Onde eu assino?

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  3. Oi, Fred!

    Outra pérola para o nosso olhar! Coisa linda de admirar é o seu poetar! Nem era pra rimar, mas já que tá, que vá! :)

    Adorei, Poeta!
    Cantas lindamente...

    Beijos

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  4. Muito lindo! Profundamente lindo, aliás.
    Acho tão dificil desenvolver esse tema e você o faz com maestria.
    Poema para reflexão.
    Gostei demais, meu querido Fred!

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  5. nosso suor sagrado é o que nos salva



    abraço

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  6. Hj é sábado de Cajú e não poderia deixar de beber o sumo.

    Mulher do sertão! Quem sabe falar da nisso, poemão

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  7. Quantas Josefas já conheci, pois também nasci no calor do sertão, e o seu poema as descreve tão bem! ;D
    Parabéns!

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  8. Vida Maria. (Já assistiu ao curta metragem?)
    Lembrou-me um pouco de Patativa, apesar do seu uso mais rebuscado da palavra.
    Apesar de triste, belo.

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  9. Muito belo o poema, parabéns.Vim conhecer seu blog, gostei muito, já sigo.

    http:umcoracaoqueama.blogspot.com

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  10. Quanto Sertões, quantas Josefas!?
    A verdade nua e crua toda contadinha em seu poema.
    Adorei a forma cantada.

    Bjs
    MariaIvone

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  11. Adorei esse sábado de caju.
    E adorei esse poema em que mostras como é a vida daqueles sem oportunidades, em um país em que a realidade desilude sonho.

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  12. Nossa, é perfeito tudo aqui. Parabéns pelo trabalho! Seguindo-te, beeejo,beeejo. :)

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  13. adorei teu blog!
    estou te seguindo!
    beijao :D

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  14. Muito legal! Me fez lembrar uns versinhos que escrevi há algum tempo... O título é "Vida sofrida" e tem tudo a ver com esse seu.

    Beijo!

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  15. Achei legal porque eu vi a Josefa.

    Até uma próxima.

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  16. Encontro aqui outro 'João Cabral',
    recolhendo poesia das pedras e
    da sequidão da vida.
    Severinas, Josefas, Marias...
    realidades comidas pelo sol,
    deixadas ali, no mais alheio do mundo.
    De vigia, apenas o acaso.

    Grande Fred: poesia e ferimento.

    Abraço.
    Ricardo

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  17. Fico imaginando um cordel assim pintado e declamado, Caju! Parabéns
    Beijo,
    Ana Claudia

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  18. Que lindo! Minha avó chama-se Josefa e este poema lembra um pouco sua vida quando ela era jovem.

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Salve, salve, camarada!
O Sábados de Caju
escuta o que pensa cada,
podem contar quaisquer fatos;
se a prosa for prolongada:
tem a sessão de Contatos!