sábado, 30 de outubro de 2010

MARINHO / CELESTE

                                              “Vertiginosamente azul. Azul”
                                                           (Carlos Pena Filho)

No mar bravio,
nenhum navio:
a solidão.

                                              No céu anil,
                                              o voo sutil:
                                              um gavião.

Ondas quebradas,
peixes sem nada:
resignação.

                                              Nuvens paradas,
                                              aves aladas:
                                              nenhum trovão.

O mar balança,
vem a bonança:
a recessão.

                                              Sem esperança,
                                              o ar não dança:
                                              estagnação.
    

sábado, 23 de outubro de 2010

JOSEFA

Eu mantenho os meus pés no chão,
pois sei como a vida é difícil;
nós vivemos em pé de guerra
e nem adianta lamentação,
assim é a vida aqui na terra.

Não sou uma mulher de cultura,
não tive tempo de estudar;
eu sempre trabalhei pesado,
sempre fui presa à agricultura,
sempre tive o corpo cansado.

Eu nasci no calor do sertão,
sou acostumada com o pouco;
eu troquei o livro pela enxada,
por isso não tenho educação
e não sou especialista em nada.

Posso não ter nenhum estudo,
mas tenho a minha sabedoria;
sou conhecedora da vida,
não preciso saber de tudo
para a alma ser reconhecida.

Aprendi a nunca reclamar,
só aprendi a dar graças a Deus,
todos os domingos vou à igreja,
pedir para Deus aliviar
a minha vida sertaneja.

Se não me apegar ao divino
não terei nenhuma esperança,
nem poderei sobreviver;
eu não quero que meu destino
sempre se limite a sofrer.

Eu vejo o meu próprio cortejo
e não pretendo morrer assim;
não sei como posso mudar,
mas ainda mantenho o desejo
da minha vida melhorar.

A lição que a vida me ensinou
não se aprende em nenhuma escola:
ter honra será meu cartão postal;
meu trabalho dirá quem sou;
dignidade será essencial.

Gostaria de ter estudado,
mas optei pelo meu trabalho;
ou aprendia a escrever o meu nome,
ou trabalharia no roçado
para não padecer de fome.

Enquanto não posso mudar,
continuarei com minha vida;
eu sempre farei do meu suor
algo que possa me orgulhar,
pois é o que tenho de melhor.
     

sábado, 16 de outubro de 2010

DOS CACHOS DOS TEUS CABELOS

Dos cachos dos teus cabelos
ainda fico com a esperança
de algum dia poder revê-los
como no tempo de criança
que repousava em sua orelha
alguma flor dada por mim,
em geral uma rosa vermelha,
que eu retirava do jardim;
hoje, quando te dou flores
com algum poema anexo
cheio de versos de amores
é porque só penso em sexo;
teus cabelos tão cacheados
ainda continuam uma beleza
mas são teus seios decotados
que me atraem com certeza.
     

sábado, 9 de outubro de 2010

RETRANCA BRANCA

Não, Alberto da Cunha Melo
não parou com seus octossílabos,
nem parou de experimentar
o que a linguagem oferece;

a tua morada te espera:
Recife, Olinda, Jaboatão,

todos querem te receber,
os versos contados e livres,
brancos, rimados e ritmados

— após quarenta anos de luta,
o poema que te faz oração.
   

sábado, 2 de outubro de 2010

FAST, FOOD!

Por favor, seu moço,
preciso comer,
me compre um almoço,
se não, vou morrer.

Minha fome não tem pressa,
lentamente me tortura
e nunca, jamais se espessa,

apenas cresce e perdura;
nem tento fazer promessa:
só a comida traz a cura.

Rápido, ajude
(sei que você pode),
me pague um fast-food,
que a fome me fode.