sábado, 28 de agosto de 2010

ESTAÇÕES E CORAÇÕES

Com tantos aromas e cores,
é clara a estação das flores.
Todos estavam na espera
para ouvir os passarinhos
cantando para a primavera,
exceto eu, que sou sozinho.
— Um coração que vive em pranto,
sem perfume, sem cor, sem canto.

Eu vejo todos mais contentes
quando o clima fica mais quente.
No brilho intenso do sol,
todos aproveitam o mar,
a piscina, o futebol,
menos eu, que não sei amar.
— Um coração que não quer luz,
que, lentamente, se reduz.

As árvores mudam de cor
e todos mudam de humor.
Os homens se rendem ao sono,
muitos querem dormir mais cedo,
enfeitiçados pelo outono,
menos eu, que vivo com medo.
— Um coração que se assombra
com o vulto da própria sombra.

Todos querem se aquecer
contra o frio que faz tremer.
A chuva purifica a vida,
que sempre vai buscar alguém
para se manter aquecida,
menos eu, sempre sem ninguém.
— Um coração só e vazio
suporta qualquer tempo frio.

Um ano, quatro estações,
um homem, quatro corações.
Tudo termina e recomeça
de forma simples e direta,
devagar e sem muita pressa,
exceto eu, que sou poeta.
— Um coração de poesia,
escravo da melancolia.
    

24 comentários:

  1. Originalmente publicado em: Lacunas do Tempo (08/04/2010).

    Estações e corações encontra-se no e-book Monopólio da Solidão, em breve disponível para download aqui mesmo no blog.

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  2. Escrava da melancolia é justinho como ando, você anda lendo sentimento, agora? Linda expressão de solidão. Precisarei de mais leituras em outras ventanias.

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  3. Fred, espero que seu tempo agora não comungue do mesmo sentimento das estações e dos corações de outrora. Hoje faz um sol lindo lá fora! Alegria! Como és poeta, vou julgá-lo, por hora, fingidor da dor que deveras sente...
    Um sábado frutífero para você!

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  4. ... menos eu que (também) não sei amar.

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  5. Mudaram as estações, nada mudou
    Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
    Está tudo assim tão diferente (Renato Russo)
    Muito lindo Fred!Ando meio sensível...essa mexeu pra valer comigo!

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  6. O tempo sempre é a melhor companhia, Fred.

    Gostei do que li. =)

    Beijos

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  7. alinhavados e amalgamados em saberes e sabores,


    abraço

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  8. Fred,

    O poeta é um fingidor. Finge a dor que deveras sente. Acho perfeito esse pensamento de Pessoa.
    O poeta não se basta, não vive do seu próprio alimento, as emoções, ele precisa comer a dos outros.

    Bom estar aqui, bjinho

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  9. Monopólio da Solidão.

    Quem não leu esse livro tá por fora do que é uma boa coleção de poemas fuderosamente fuderosos.

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  10. Segundo sábado seguindo, segundo sábado gostando!
    Parabéns e até mais! Se der olha o meu blog também! Abraço!

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  11. Um dos poemas mais bonitos que li sobre o próprio poeta (:
    Beijos Fred, Bom finde!

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  12. [...] Um coração só e vazio
    suporta qualquer tempo...

    Lá naquela ilha chamada solidão, habitava um naufrago. Um homem forte, guerreiro...

    Ele lutava,

    Quando havia folhas no chão...
    Quando a tempestade caia...
    Quando as borboletas o visitavam...
    Quando o sol queimava.

    Sabia estar só, a soma dos dias aumentava o vazio.
    Não houve um dia que ele não lutasse

    - E contra quem o homem lutava?

    Contra a ilha chamada solidão?
    Contra as folhas?
    Contra a tempestade?
    Contra as borboletas?
    Contra o sol?

    Ainda,
    Contra ele mesmo?

    [...] Um coração se assombra
    com o vulto da própria sombra...

    Boa a sua poesia!

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  13. Bem,
    como sempre com tanta gente puxando sardinha
    e tu se sentindo a AIDS que matou Cazuza!
    Destarte, deixarei minha ironia para uma
    outra pessoa ou ocasião;
    enfim, gostei muito do texto

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  14. cores e palavras sempre foram uma canção danada de boa de nos ouvir

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  15. O coração da poesia é escravo de todos os sentimentos.

    Adoro esse poema! =)

    =*

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  16. Lindo, lindo!
    O poeta vive todas as estações para a sua poesia.
    Adorei mesmo! :*

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  17. Ah, que coisa mais linda! uma leitura gostosa pro meu dia.. =)

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  18. você tinha razão adorei mesmo...
    Beijos

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  19. Uau, Fred!

    Belíssimo poema!

    'Um ano, quatro estações,
    um homem, quatro corações'

    Estamos em sincronismo...

    ;-)

    Beijinhos...

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  20. ..."menos eu, que não sei amar"

    Será que saber amar é um dado inato a poucos privilegiados ou é possível aprender a amar?

    Será que estamos condenados a não saber amar toda uma existência?

    Quem não sabe amar, sabe viver??

    Eu assusto comigo mesma, acho que não sei amar... Às vezes, acho que sinto muito amor, outras que não sinto nenhum, nenhum...

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