sábado, 3 de julho de 2010

CLAYDE

Desde o início, desde pequena
algo nessas estrelas me atrai,
algo nelas me dá esperança;
mas olhá-las não vale a pena,
já não sou mais nenhuma criança.

O anoitecer é o meu sustento,
porém, também é o meu carrasco;
nele que ganho minha vida,
ele me leva como o vento,
deixando-me vazia e perdida.

Ao me perder no anoitecer
encontro a solidão dos homens
que me pagam para vencê-la,
mas eu jamais irei vencer,
ficarão sós como as estrelas.

Os homens e as estrelas são iguais:
aparentemente estão próximos,
mas tudo é apenas aparência;
distanciam-se cada vez mais
com a sua pesada consciência.

O peso dentro da cabeça
tortura-lhes durante a noite
não os deixando sequer dormir,
e por mais que o bem aconteça
eles não conseguem sorrir.

Foi por me sentir solitária
que resolvi ganhar a vida
nessa tão sofrida profissão,
a escolha foi desnecessária,
pois sempre vivi sem privação.

Muitas mulheres são obrigadas
a entrar para esse sacrilégio,
pois a pobreza prevalece
obrigando-as a dar entrada
na vida que ninguém merece.

Nós somos marginalizadas,
contudo quem explora é imune
a qualquer discriminação;
nós somos amadas e odiadas:
eis o ciclo da profissão.

Eu não sei se voltarei a amar,
eu perdi a pureza do sexo
com a sujeira do dinheiro,
quando precisava transar
com quem me chamasse primeiro.

Quanto mais vivia na profissão,
mais sentia a frieza desse mundo
fui perdendo o calor que tinha;
não existe nenhuma solidão
que seja superior a minha.
    

12 comentários:

  1. Originalmente publicado em: Cronisias (12/06/2010).

    Clayde encontra-se no e-book Vênus, disponível para download aqui mesmo no blog.

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  2. Post muito bom; retrata a realidade, e de uma maneira menos impessoal e fria, já que se é mostrado os sentimentos de quem, como qualquer outra pessoa, precisa de carinho. E de amor. Mais que prazer.Por mais que tenha prazer.Faz a gente pensar em quem não tem opções e encara uma vida cheia de riscos, vendendendo seu corpo pra sobreviver, descartando o cuidado com seus afetos, saúde e com seus projetos de vida.Esses problemas sociais estão moldando uma geração cada vez mais frágil, em todos os aspectos.
    Bom é ser criança: se preocupar só com problemas que na verdade não são tão problemas, e olhar as estrelas.
    Bom é olhar as estrelas.

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  3. quando venho aqui e leio as poesias só me vêm à mente as aquarelas de caju de guita charifker.
    pura poesia.

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  4. essa eu já conhecia. Rele-la n me fez gostá-la menos. Beijinhos fofos.

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  5. Fred, a sua poesia tem consciência social sem cair na obviedade. Há imagens contundentes nesse poema.
    Gostei do projeto "Amplitude Compacta".

    Abraço.

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  6. Clayde é especial! Adoro!

    =*

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  7. Lindos escancarados versos! Como sempre, adorei!

    bjs Fred.

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  8. Estive aqui no sábado, mas não tive tempo de comentar...

    Mais uma vez a sensibilidade do poeta fotografa alguns escuros do nosso cotidiano.
    Gosto das sombras deflagradas no verso; especialmente da luta dos contrastes, da luz real das coisas, sem retoques.

    Grande, Fred.

    Abraços.
    Ricardo

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  9. Hoje eu vim aqui para dizer apenas uma coisa: esse blog é um sucesso, o que na verdade significa que o mundialmente desconhecido Caju não é mais tão desconhecido assim.

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  10. Ô Fred, me fez chorar de alegria e tristeza com este poema.

    Consigo ver o eu-lírico deste poema, consigo me ver nela, e consigo vê-la em todas nós.

    Apesar de eu não gostar nenhum pouco de versos rimados, este, meu querido, este poema, estes versos, estes eu aprecio sim, e digo mais, me fez rever meus conceitos.

    e divulguei isto em meu twitter.

    beijos.

    T.

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  11. Oi, Fred...
    pode publicar "Ponte sobre vazios" no "Cronisias".
    Aliás, isso muito me deixa feliz.

    Abraço.
    Ricardo

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Salve, salve, camarada!
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